quinta-feira, 13 de maio de 2010

TERAPIA COMUNITÁRIA INDÍGENA




A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) da Presidência da República, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC) realizam dia 26 de abril próximo o lançamento do Projeto Piloto de Formação de Lideranças Indígenas em Terapia Comunitária , Massoterapia e Técnicas de Resgate da Autoestima Indígena.
O projeto piloto, de caráter inovador, tem financiamento da SENAD, e visa contribuir com a prevenção e atenção aos problemas do uso de drogas nas comunidades indígenas. 60 índios de todas as regiões brasileiras virão à Fortaleza participar do I Módulo da Formação que ocorrerá de 26 de abril a 02 de maio. A aula inaugural do curso será realizada no Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária - Projeto 4 varas no Pirambú. Os cursos acontecem em 4 módulos. Os demais módulos ocorrerão na cidade de Porto Seguro.

Estarão presentes à cerimônia o Secretário Nacional de Políticas Sobre Drogas, Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, o Presidente da FUNAI, Márcio Augusto de Freitas Meira, a Coordenadora Nacional de Educação das Comunidades Indígenas, Maria Helena Fialho e os caciques das sete (7) etnias participantes do curso (Ticuna, Xacriabá, Terena, Kaingang, Guarani, Pataxó e Kaiowá).

O Projeto piloto será desenvolvido em Fortaleza e em Porto Seguro – BA. Em Porto Seguro será criado um pólo de Formação em Terapia Comunitária para as comunidades indígenas, com a construção de um complexo formado por uma oca de saúde comunitária para realização de massoterapia e do salão terapêutico tal como desenvolvidos no Projeto 4 varas.

SENAD, FUNAI e UFC desde 2004 vêm desenvolvendo projeto de atenção às comunidades indígenas em matéria do uso de drogas. Dentro deste projeto destacamos a pesquisa sobre o uso de álcool e outras drogas pelas comunidades indígenas brasileiras. Pesquisa coordenada pela Universidade Federal do Estado de São Paulo.

Serviço:
Evento: Cerimônia de Lançamento do Projeto de Formação de Lideranças Indígenas em Terapia Comunitária, Massoterapia e Técnicas de Resgate da Autoestima.

Local: Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária do Ceará – Projeto 4 varas
Endereço - Rua Profeta Izaías 456, Pirambú – Fortaleza – CE - localização pelo site www.4varas.com.br

Horário: 09h às 11h30min

Saiba mais:

A Terapia Comunitária (TC) foi desenvolvida no Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará sobre a coordenação do Antropólogo e Psiquiatra, Prof. Dr. Adalberto de Paula Barreto. “A Terapia Comunitária é um instrumento que nos permite construir redes sociais solidárias de promoção da vida e mobilizar os recursos e as competências dos indivíduos, das famílias e das comunidades. Procura suscitar a dimensão terapêutica do próprio grupo valorizando a herança cultural dos nossos antepassados indígenas, africanos, europeus e orientais, bem como o saber produzido pela experiência de vida de cada um". (Adalberto Barreto).

Seus objetivos são valorizar e reforçar o papel do indivíduo, da família e da rede de relações para que possam descobrir seus valores; favorecer o desenvolvimento comunitário, prevenindo e combatendo as situações de exclusão dos indivíduos e das famílias por meio da restauração e fortalecimento dos vínculos sociais e afetivos; tornar possível a comunicação entre as diferentes formas de “saber popular” e “saber científico” e intervir nas determinantes sociais da saúde, em especial na redução do estresse e ampliação do apoio social.

Parcerias

Em 1992 foi realizada uma parceria entre a Universidade Federal do Ceará e a Pastoral da Criança para capacitar os agentes da pastoral em Terapia Comunitária e ampliar suas possibilidades de atenção às famílias e comunidades.

Em 2004 uma parceria firmada entre a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, a SENAD, o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária – MISMEC – CE e a Universidade Federal do Ceará possibilitou capacitar em Terapia Comunitária lideranças comunitárias em nível nacional com foco na prevenção ao uso de Álcool e outras Drogas. Nesta parceria foi realizado estudo de impacto da TC na atenção comunitária. Da realização de 12.000 rodas de terapia comunitária identificou-se que somente 11% dos casos necessitavam de encaminhamento para serviços especializados, Os demais encontravam resolutividade na própria roda de terapia comunitária.

Em 2007 o Ministério da Saúde reconhece a TC como uma prática de atenção básica. Investe em 2008, 2009 e, agora em 2010, na formação de integrantes da Estratégia Saúde da Família e Rede SUS em Terapia Comunitária.

Por meio das parcerias realizadas a TC alcançou repercussão nacional e internacional. O Brasil possui atualmente 16.600 terapeutas comunitários atuando em suas comunidades de referência e 40 pólos de formação distribuídos em todos os estados brasileiros. Os terapeutas comunitários estão organizados por meio da Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM.

Para outras informações sugerimos os seguintes sites

Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM – www.abratecom.org.br
Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária – MISMEC \ Projeto 4 Varas – www.4varas.com.br

O que é ser um terapeuta comunitário

Um terapeuta comunitário é uma pessoa que quer sarar constantemente das suas neuras, das suas dificuldades pessoais, de, como pessoa deste tempo, homem ou mulher do século XXI, abrir caminho para seus sonhos, suas possibilidades e suas capacidades para ser feliz.

É alguém que aprendeu, de repente ou num processo, que não poderia sarar sozinho, pois que não fora sozinho que adoecesse. Suas dores foram coletivas, embora aninhadas no seu ser individual.

O terapeuta comunitário aprendeu a lembrar de si e lembrar outros de si mesmos. Não como técnica apenas, mas sobre tudo como prazer pessoal, como satisfação de ver o outro crescer no processo mútuo de construção da própria pessoa.

Um terapeuta comunitário é alguém que lembrou das suas raízes, do lugar e da família, do bairro ou da terra, da província ou do estado de origem. O terapeuta, ao lembrar de si, reconstitui a sua história, sua memória, seus afetos, suas lutas, e se torna um motivador da libertação pessoal e coletiva.

O terapeuta comunitário aprendeu que é dando que se recebe. No convívio com os pobres, rompeu barreiras que as socializações posteriores à primária, estabeleceram no seu ser, retomando o contato com a fonte viva da vida. A gratuidade e a generosidade das pessoas do meio popular, sua fé e solidariedade, sua esperança ativa, renovam no terapeuta comunitário a sua própria resiliência.

O terapeuta comunitário rompeu com o autismo universitário, com o egocentrismo intelectualista, com os preconceitos que o isolavam de si mesmo e da vida e das pessoas ao seu redor. Por viver em rede, ele se restitui constantemente à trama da vida. O símbolo da terapia comunitária, a teia da aranha, mostra o trabalho constante do ser humano, terapeuta ou não, por estabelecer conexões vitais em todas as direções. Para dentro e para fora. Consigo, contigo, com o passado, o presente e o futuro. Com Deus, com a terra, com os vizinhos, com as pessoas com que se encontra a qualquer momento e em qualquer lugar. O terapeuta comunitário é um germe do homem e da mulher novos pelos quais trabalharam, sonharam e morreram milhares de pessoas em todos os tempos e em distintos lugares da Terra.

Ele é uma semente de esperança viva e ativa.

E muitas outras coisas que iras descobrindo na tua própria caminhada.

Formação de terapeutas comunitários em Sousa, PB

Entre os dias 24 e 28 de agosto de 2009, realizou-se na cidade de Sousa, o segundo módulo do curso de formação em terapia comunitária organizado pelo MISC-PB em colaboração com o Programa de Posgraduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba. Na oportunidade, mais de 60 cursistas oriundos da própria cidade, bem como dos municípios de Pau dos Ferros, Santa Luzia, Bonito de Santa Fé, Cajazeiras, e outros lugares, se reuniram no Centro de Formação e Treinamento de Professores, para trabalharem suas competências no cuidado à saúde, de acordo com o livro do Prof Adalberto de Paula Barreto, onde está fundamentada a terapia comunitária integrativa e sistêmica.

Esta tecnologia de cuidado se baseia, entre outras coisas, na resiliência, a carência que gera competência. Outro dos pilares, o pensamento de Paulo Freire, estabelece a horizontalidade e a circularidade do saber, na busca da autonomia da pessoa e da comunidade. O pensamento sistêmico e a teoria da comunicação humana, unidos à antropologia cultural, completam a fundamentação desta atividade. As pessoas, na sua maioria, trabalham na estratégia de Saúde da Família, sendo na sua grande maioria, agentes comunitários de saúde, poucos/as médicos/as, pedagogos, etc, ligados ao cuidado humano. Nestes encontros, trocam-se experiências, se fortalecem vínculos entre as pessoas, frequentemente premidas por urgências da sobrevivência e relações de trabalho.

A busca de si, a necessidade da pessoa ser o que ela é e não o que os outros desejam que seja, ouviu-se com ênfase na avaliação final dos cinco dias de vivência, da parte de muitos dos participantes. Outros, enfatizaram a necessidade de evitarem julgamentos na relação com os participantes das rodas de terapia e do público que atendem. Vivências como as do sol e da lua, do feminino e do masculino em cada um, mostraram a alguns e algumas, a importância do autoconhecimento das próprias fases e da realidade interna, para um agir de acordo com a própria natureza e não de maneira mecânica, técnica.

Chama a atenção, nestes eventos, a socialização e a partilha de saberes antigos, populares e cientificos, religiosos de variadas origens, amalgamados na reconstrução constante de uma humanidade mais aberta à pluralidade e ao respeito às diferenças, mais solidária, num esforço permanente de conhecimento pessoal e coletivo, nas bases da sociedade. É isto.

A pedagogia de Paulo Freire e a Terapia Comunitária

A pedagogia de Paulo Freire e a Terapia Comunitária partilham alguns princípios comuns que estão interconectados: A autonomia do sujeito, a horizontalidade do saber, a educação como prática libertadora, e a incompletude do ser humano.

O princípio da autonomia concebe o ser humano como autor do seu próprio destino, livre e responsável, construtor da sua própria circunstância e, portanto, autor das práticas capazes de reconduzi-lo ou reconduzi-la à liberdade em caso de dominação ou opressão.

A horizontalidade do saber supõe que todos sabemos, todos somos doutores na nossa própria vivência e a experiência de cada um é a fonte primeira do saber que nos permite eleger e viver.

A terapia comunitária parte deste princípio, unindo saber popular e científico, numa amálgama que reconstrói pessoas e comunidades no seu protagonsimo, rompendo com a cultura da vitimização e da miséria psíquica.

Na terapia comunitária, por outro lado, também se incorporam saberes de distintas vertentes de sabedoria da humanidade, como o conhecimento dos chakras como centros energéticos que nos conectam com o todo.

O caráter libertador da prática educativa supõe eu saber nos faz livres, e que podemos saber não acumulando conhecimento ou informação, mas nos apropriando da nossa própria experiência, nos tornando donos do que somos, donos de nós mesmos. Saber por que somos e como somos nos faz senhores da nossa vida e não vítimas das circunstâncias ou de algo ou alguém em quem projetamos um dominador ou um inimigo.

Na terapia comunitária, você descobre seu inimigo como um colaborador, alguém sem o qual você não seria quem é, já que ele lhe mostra o que você não quer ver, a parte sua que você rejeita.

Você busca dentro de si mesmo a razão de ser do que lhe acontece, ao invés de culpar os outros ou o destino ou Deus ou quem for, pelo que ocorre na sua vida.

Isto faz você forte, porque embora você esteja como todos estamos, em relação com outras pessoas, esta relação não o oprime mas o liberta. Você compreende que um mundo melhor se faz a partir do momento em que você se perdoa, se quer, se percebe como alguém bom vencedor, capaz de amar se ser amado, de errar e corrigir o rumo, alguém que está a caminho, sempre, nunca concluído.

Desta forma, você já não mais se julga vítima daquele trauma ocorrido na sua infância ou depois, na sua vida adulta.

A vida nos golpeia, todos sabemos, mas a capacidade de nos fortalecermos com esses golpes que teriam nos derrubado, a resiliência, é um saber a flor de pele no povo, nas classe populares, embora nem sempre a pessoa tenha noção disto, mas essa força reside nela e é ativada no encontro com outros vencedores, nas rodas da terapia, nas formações, onde ela descobre que sua vida é uma teia, a vida de todos é uma teia tecida em todas as direções, unindo o que foi e o que é, o que será, tudo está conectado.

E a mudança que processo em mim, melhora a vida de todo o que me rodeia e de que faço parte, incessantemente, continuamente, sem fim.

Essa noção de unidade plenifica e reconforta, repõe uma sensação de eternidade sem a qual o efêmero perde sua significação e seu sentido.

A terapia comunitária como ferramenta de mobilização social

Se entendermos a mobilização social como um processo de dissolução de barreiras que impedem a livre circulação e inserção de pessoas na sociedade como um todo, ou em alguma das suas sub-sociedades (famílias, bairros, comunidades, movimentos), podemos entender, como aqui esta dito, que a terapia comunitária seja uma estratégia de mobilização social.

Nela colaboram, lado a lado, pessoas humildes e doutores, estudantes e donas de casa, pessoas viciadas em drogas e crentes das igrejas mais variadas, com o objetivo comum de superarem juntos, os problemas mentais, emocionais e relacionais de todo ser humano.

Nas rodas de terapia, como diz o Prof. Adalberto Barreto, seu fundador, e a experiência comprova, os estudantes saram do autismo universitário, da miragem de um saber sem gente, de um conhecimento sem experiência. E as pessoas do meio popular colaboram com o que tem de mais próprio, seus valores originais, a sua generosidade, simplicidade, solidariedade, entre outros. Não partimos de uma visão idealizada dos pobres.

Um dos pilares da Terapia Comunitária, a pedagogia de Paulo Freire, afirma a autonomia dos sujeitos e a horizontalidade do saber. Isto é praticado a partir do momento em que você entra numa roda de terapia. Ninguém lhe pergunta sua profissão, embora você possa dizê-la. Mas quando alguém fala, os outros escutam. Todos e todas tem algo a dizer. Todas as histórias, os problemas, os sonhos, os anseios e ansiedades, são importantes. Ninguém dá conselhos nem interrompe quando os outros falam. Não há ninguém mais importante que os demais.

Todos se tocam, se abraçam, se trocam olhares e palavras de carinho, de afeto, de apoio, de compreensão.

Costumo dizer, e tenho ouvido outros e outras dizerem, que na terapia comunitária, você se torna terapeuta de si mesmo. Não há a pretensão de que o terapeuta cure ninguém. É a comunidade que cura. A sua comunidade interna e a externa. A que você é em si mesmo ou em si mesma, e a que você forma, faz parte, fora de você, na sua relação com os demais.

Quebra-se a dependência, você pode, os outros podem, todos juntos podemos mais. E se isto possa soar como algo ilusório ou pueril, você pode testar, de várias formas, a sua veracidade. Uma, participando de uma ou mais rodas de terapia. Outra, ouvindo alguém que já participou ou participa. E, ainda, tomando conhecimento do impacto que esta atividade vem mostrando em diversos municípios do Brasil, na criação ou reforço de redes solidárias, estimulando o aumento da auto-estima de pessoas e comunidades, promovendo a reintegração de ex-dependentes de álcool ou outras drogas ilícitas, mobilizando coletivos das periferias urbanas e de nichos de classe média das cidades, que, aos poucos, mas evidentemente, começam a sair do imobilismo e da apatia, da resignação e da manipulação externa, para serem, cada vez mais, pessoas e comunidades, agentes ativos da sua vida e do seu destino.

Participação social

O tema da participação social há muito tempo tem transbordado os âmbitos acadêmicos e/ou tecnocráticos dos governos e entidades de pesquisa, para se tornar, cada vez mais assunto do dia a dia, do cotidiano das pessoas e instituições. No caso concreto do Brasil, há já várias iniciativas que vem, como a Terapia Comunitária Integrativa e Sistêmica do Prof. Adalberto Barreto, ganhando espaços na construção e reforço de laços sociais, agregando pessoas e comunidades, em sentido contrário ao produzido pelas tendências dissociadoras e anomizantes do mercado.

Na ética cotidiana de pessoas e comunidades, de gestores em saúde e ambientes acadêmicos e de mobilização social, as relações cada vez mais são permeadas por valores solidários, pela recuperação e fortalecimento das identidades pessoas e sociais, reforçando instituições e indivíduos numa marcha silenciosa mas eficiente. Se isto pode parecer idílico ou sonhador, não sabemos, mas o certo é que, pela base da sociedade brasileira, este e outros movimentos, como o da Teologia da Libertação e a Educação Popular de molde freireano, vêm ganhando espaço de forma animadora.

Os valores cotidianos, que apreciam entregues ao imediatismo e ao pragmatismo utilitário bem ao gosto do capitalismo diário, cedem espaço para o interesse pelo outro, pela ajuda mútua em várias modalidades. Isto permite conjecturar que, em não muitos anos, várias das lacunas de participação no Brasil possam estar fechadas ou em vias de fechamento. A educação em expansão em moldes integrativos, com programas como o da Universidade Aberta; o crescente interesse e participação de pessoas de todas as idades em atividades voluntárias de várias tonalidades e formatos, vão construindo, com outras inciativas nos terrenos da arte e da cultura, da dança e da música, do artesanato, e da reciclagem de resíduos, ume perspectiva de coesão e de participação social impensável pouco tempo atrás.

O analfabetismo, a expulsão dos pequenos agricultores das terras nos interiores, o desemprego e o subemprego, a subremuneração e a exclusão social que em grande medida ainda prevalecem no País, cedem terreno, como dissemos, em escalas não pequenas, a estas ações concretas que pontuamos, visando a construção de um tecido social mais firme e unido.

Os valores na formação do terapeuta comunitário

Na terapia comunitária, a pessoa se reencontra com o que ela é, com seu ser mais profundo. Quando você começa a participar das rodas da terapia, você percebe que não está só nem isolado, que a sua história não está solta nem você desgarrado. A sua vinda para a cidade, se você veio do interior ou de outro estado ou, ainda, de outro país, é um caminho que muitas pessoas na roda fizeram. Aos poucos, você vai se sentindo mais coeso, mais integrado, mais parte de um todo. Esse todo é você mesmo, a pessoa que você é. A soma de pequenos e não tão pequenos atos e decisões, fatos da sua família e do seu povo, da sua cultura e das situações que você passou para chegar aonde está, para vir a ser quem você é.

Como foi escolhido o seu nome, qual dos filhos ou filhas da sua família você é, como foi o seu nascimento, todos são fatos que compõem essa diversidade conflitante ou não, em movimento, em perpétua reorganização, que cada um de nós é, que todas as pessoas são. Na formação como terapeuta comunitário, cada um de nós da um mergulho profundo na sua história, nas suas raízes, na caminhada que o fez chegar a ser quem é e a estar aonde está.

Muitas vezes na primeira roda, a primeira vez que comparece a uma terapia comunitária, a pessoa descobre que ela não é a única que sofre dessa dor ou que passa por essa dificuldade que lhe tira o sono, que a faz sentir alguém sem um lugar. Na primeira intervisão dos terapeutas comunitários formados em Salto, Uruguay, em novembro de 2009, tive a oportunidade de ouvir a história de um homem que entrou na roda da terapia comunitária, na sua cadeira de rodas, e saiu aliviado, dizendo: “Eu achava que eu fosse o único”.

Quando você descobre que a sua dor não é a maior do mundo, que a sua perda, a dor que você acarretou durante anos, o não gostar de si mesmo ou de si mesma, que lhe foi inculcado por circunstâncias que você aprende a decodificar e compreender, ou por situações perante as quais você foi forçado a se submeter sem poder reagir para preservar a sua identidade, você começa a fazer o caminho de volta.

Se diz que a terapia comunitária é integrativa e sistêmica. Integrativa, porque a pessoa passa se perceber como uma unidade, não mais como um pedaço ou fragmento. Sistêmica, porque a sua vida, a sua história, as coisas em que cada um de nós crê e que nos dão razão e sentido para viver, são comuns a um povo e a uma cultura. Na formação do mesmo grupo de terapeutas comunitários do Uruguay, em julho de 2009, tive a oportunidade de intervir, com os conteúdos sobre "os valores na formação do terapeuta comunitário". Lembro como se fosse agora, as expressões nos rostos dos participantes da formação. A alegria de se saberem partes de uma história, descobridores e descobridoras de si mesmos.

Na ocasião, entre outras coisas, se falava do lugar e do papel de cada um e de cada uma na vida, o lugar que cada um e cada uma ocupam, lugar insubstituível. Em outra formação, no interior da Paraíba, na cidade de Souza, uma formanda expressava com veemência: Eu sou o que eu sou, e não o que os outros querem que eu seja. Essa expressão, seu profundo significado, vão trazendo você de volta.

Quando fui para o Uruguay em 2005 pela primeira vez, participei de uma sensibilizaçaão em terapia comunitária na Universidad de la República, na Faculdade de Enfermagem. Nessa oportunidade, por primeira vez na minha vida me encontrei com um grupo de pessoas que tinham sobrevivido, como eu, a uma ditadura. Ouvia as histórias de todos e de todas, e aos poucos a minha história foi ganhando um outro significado, uma outra solidez e consistência.

Isto ocorre nas rodas da terapia. Na história do outro, me reconheço. Essa história evoca a minha própria história. É o que se chama de escuta ativa, uma das ferramentas do terapeuta comunitário. E vou deixando por aqui, na expectativa de ter atiçado a sua curiosidade, querido leitor ou leitora, para vir a fazer parte dessa roda, caso já não o faça.

Auto-conhecimento

Conheça a você mesmo, dizem que estava escrito no pórtico do Oráculo de Delfos. Muitas vezes ao longo da vida, somos levados a acumularmos saber sobre outros, sobre outras coisas, sobre coisas que não dizem respeito ao saber de si, ao saber sobre nós mesmos. Quem conhece os demais é inteligente, diz o Tão Te King, o livro chinês escrito por Lao Tsé, quem conhece a si mesmo é sábio. O saber de nós mesmos nos remete para o singular, para essa individualidade única e irrepetível que somos cada um de nós. Quando eu me conheço, separo o que não se me aplica, e fico com o que é meu. Sempre deverei estar fazendo isto, pois estarei cercado, como estive até aqui, ao longo da minha vida, de gente que dizia e diz saber muito de mim, sem saber. Quando começo a me conhecer, como diz o aforisma oracular citado no começo destas linhas, começo a respirar fundo, me defronto com uma realidade singular, esta do ser que eu sou. Eu não sou um ser genérico, nem você é. Ninguém é um ser genérico, somos todos criaturas únicas e singulares, irrepetíveis. No entanto, funcionamos como se devêssemos constantemente obedecer a padrões alheios, externos, que não se aplicam a nós mesmos, pois são fruto de generalizações. Um escritor escreve o script da sua própria vida. Nos seus escritos, ele ou ela vai se tornando o artífice dos seus próprios atos, do seu próprio ser, que vai se revelando nos seus dizeres, nas palavras que dele ou dela saem. Assim, aos poucos, ele ou ela, vão se tornando cada vez mais quem são, esse ser sem irrepetível que cada um de nós é. Então, você ira sabendo como é sua forma de pensar, e não a que lhe dizeram que você tinha. Você ira sabendo o que quer, e não o que cria querer. Aos poucos, muito lenta mas claramente, de forma muito definida, você irá jogando fora o que não lhe pertence, para ficar com aquilo único que sempre lhe pertenceu.

A terapia comunitária como ferramenta de inclusão social

Nos dias de hoje, muito se ouve falar sobre inclusão social. Para quem, como eu, tem estudado a marginalidade social desde pontos de vista sociológicos, o conceito de inclusão social remete a uma integração de setores marginalizados no quadro da estrutura social vigente.

No contexto destas breves reflexões que hoje quero partilhar com vocês, a inclusão social tem um aspecto de integração da personalidade e integração na sociedade.

Nas rodas da terapia comunitária, que é chamada de integrativa e sistêmica, as pessoas passam a perceber a unidade das suas vidas, o fio condutor que costura, unificando, os fatos primeiros e derradeiros das suas vidas. Isto ocorre de várias formas.

A história pessoal de cada um e de cada uma vem a tona, e se emparenta com as histórias de vida dos outros presentes. A saída da roça ou da cidade pequena para a grande cidade, para a periferia urbana, com a conseqüente sensação de perda de identidade, são sentimentos comuns aos migrantes no Brasil e em qualquer parte do mundo.

Mudam os costumes, deixo de ser alguém inserido numa trama de relações habituais, para passar a ser algo estranho, um desenraizado, uma alma penada, como diz Adalberto Barreto em “As dores da alma dos excluídos no Brasil”. Quando passo a fazer parte da roda da terapia, começa a se costurar a minha própria história, ela ganha coerência e consistência. Já não sou mais um João ninguém.

Outros pronunciam meu nome uma vez à semana, ao menos. São lembrados os aniversários, canta-se e dança-se juntos. Muitas donas de casa que não saiam das suas casas, vêem outras pessoas, sorriem, encontram um sentido maior no seu viver, do que meramente atenderem marido e filhos que, muitas vezes, tem suas próprias vidas à margem da delas.

Aposentados que apenas viviam à espera da morte, recuperam a alegria de viver, brincam, contam chistes, dançam nas rodas e entoam orações com crianças, com jovens, com estudantes e doutores da universidade e técnicos em saúde, agentes comunitários, etc. A integração funciona para todos, para os de baixo e os do meio, na verdade, uns e outros geram uma mandala giratória, em que ninguém sabe quem é o outro.

Apenas um igual, alguém que como eu se perdeu ou se perde ainda, e se reencontra. Assim, a inclusão funciona para dentro e para fora da pessoa. Eu me incluo na medida em que me sinto incluído numa história comum, numa fala comum em que me reconheço. Neste sentido, inclusão e integração, funcionam quase como sinônimos.

Os estudantes e doutores, médicos e professores, por sua vez, quebram a barreira do isolamento que a educação superior produz com freqüência, e se redescobrem gente, apenas gente. Nestas rodas, se processam momentos de encontro das pessoas consigo mesmas, motivo pelo qual pode se dizer, como conclusão destas breves considerações, que a terapia comunitária é uma ferramenta de inclusão social.

Terapia Comunitária no Uruguay

Entre os dias 9 e 10 de abril DE 2010, realizou-se em Montevideo, Uruguay, a segunda intervisão do primeiro grupo de terapeutas comunitários formados na América Hispânica. O encontro contou com a participação de 15 terapeutas formados em Paysandú em 2009, e mais a presença de pessoas interessadas em conhecer a terapia comunitária. Conversou-se sobre as dificuldades encontradas na prática, e se refletiu sobre as razões para que cada um se mantivesse na terapia comunitária. Esta reflexão mostrou, nas explicitações de cada um, a estreita relação entre esta atividade de recuperação da pessoa humana, e a história pessoal de cada um. Uma das terapeutas falou da atividade realizada com jovens de rua viciados em drogas. A professora Maria Filha, da UFPB, ressaltou a importância do auto-conhecimento no exercício da terapia. Uma roda de terapia comunitária foi realizada com os presentes, com a condução da professora Silvia Meliá, de UDELAR, Luz Vázquez e Aracely Otarola. O encontro foi realizado nas instalações da Facultad de Enfermería da Universidad de la República.