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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A teia e a cultura





A teia é para a aranha, assim como a cultura é para o homem.

O que seria de nós sem a cultura? O que seria da cultura sem nós?

Pergunto como seríamos sem os laços da vida que nos enlaçam onde quer que vamos. Como seriam as manifestações sociais tão importantes para a manutenção da memória coletiva, se não houvesse a cultura. Podemos existir, embasados em um compromisso "eco-ético-espiritual" sem respeitar os saberes de nossos antrepassados, nossa memória herdada?! Como pensar religiões diferentes, formas de curas diferentes (populares inclusive), maneiras de pensar, vestir, falar, andar, olhar, se não respeitamos os saberes, crenças e costumes tão diversos?
Joseph Campbell, antropólogo e mitólogo, quando perguntado sobre a "mitologia do século XXI", deu um exemplo da terra vista pelo espaço, sem divisões, um globo azul e branco, sem países, estados, distritos e etc. Queria dizer que a mitologia de hoje, representaria essa união entre os povos, uma união entre as culturas de povos tão diversificados . . .
Na Terapia Comunitária, não há verticalidade. Todos aprendem. E é aqui, que termino esse "diálogo" com uma frase do aprendizado de uma participante da Terapia Comunitária: "Somos diferentes em muitas coisas, mas somos iguais em muitos aspectos"

domingo, 19 de outubro de 2008

Manifesto da Terra-Mãe



A Carta do Cacique Seattle

Em 1854, o chefe Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington,
depois de o Governo norte americano ter proposto a compra do território ocupado
por aqueles índios, respondeu ao presidente dos Estados Unidos:

"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

"MITCO"

Movimento Integrado de Terapia COmunitária
de Nova Friburgo

Alusão a palavra "Mítico", que é da natureza dos mitos, fabuloso, fantástico. Do latim mythicu, do grego mythikós. Tradição que, sob a forma de alegoria, simboliza um facto natural, histórico ou filosófico; construção pura do espírito. "Um mito é uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida (...). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade. (...) Ao mito está associado o rito. O rito é o modo de se pôr em ação o mito na vida do Homem ".

Fazendo uma ponte com a Terapia Comunitária, a mesma é definida como "(...) um instrumento que nos permite construir redes sociais solidárias de promoção da vida e mobilizar os recursos e as competências dos indivíduos, das famílias e das comunidades. Procura suscitar a dimensão terapêutica do próprio grupo valorizando a herança cultural dos nossos antepassados indígenas, africanos, europeus e orientais, bem como o saber produzido pela experiência de vida de cada um". (Adalberto Barreto)

Nesse "sentido emprestado", não desejo pensar o conceito do termo mito, ou mítico, de modo pejorativo, já que este, por definição é usado assim quando se refere a crenças comuns, mas aludir a carga simbólica que há na fala emprestada daquele que a utiliza para trazer a sua história. Refiro-me, com essa idéia, aos relatos e histórias, sobretudo, das culturas antigas que foram, em grupo, contadas por seus antepassados milhares e milhares de vezes e que, organizados, constituem a sua história, sua mitologia.

No grupo de Terapia Comunitária, se valoriza essa história que é contada a partir das experiências de vida de cada um, se resgata essa identidade cultural, espiritual e sagrada do humano (e não dos Deuses).

Grato
Marcelo P. Abdala Costa

Educação Popular e Políticas Públicas


"Estamos em um momento da atenção básica brasileira em que foram desenvolvidas muitas reflexões bastante elaboradas sobre os caminhos da atenção integral. Principalmente entre os gestores do setor saúde, circulam muitos estudos e propostas de reorientação do cuidado em saúde referenciadas em sofisticados estudiosos nacionais e internacionais. Isto representa um grande avanço. Mas conhecimentos e propostas teóricas não substituem a atitude de proximidade e abertura para o diálogo com o outro que, no trabalho em saúde,.se apresenta de maneiras tão diversas e inusitadas. Teorias muito sofisticadas sobre o cuidado integral, aprendidas apenas no nível da razão, têm ajudado a reforçar uma atitude de soberba e fechamento diante de colegas que não as conhecem ou diante de pessoas em atendimento ou grupos comunitários, que não se adeqüam às suas formulações. Como os gestores não prestam assistência diretamente, eles precisam generalizar este conhecimento progressista junto aos profissionais que lidam com o cotidiano do atendimento, através de procedimentos administrativos e pedagógicos. Tem-se assistido muitos processos de educação profissional que são verdadeiras tentativas de enfiar “goela abaixo” conhecimentos progressistas voltados para a atenção integral. Temos assistido, com outras roupagens e outros conteúdos, a ampliação, na saúde pública, da pedagogia mais autoritária, centrada em conteúdos teóricos progressistas e humanizantes, que setores de esquerda considerados de vanguarda historicamente vêm empregando. Desconsidera- se, muitas vezes, os saberes prévios e os valores diferentes, nestes processos de educação permanente, por considerar os profissionais de saúde em treinamento como alienados e presos a modelos médicos tradicionais. Em nome da urgência de humanizar a assistência à saúde no SUS, tem-se ampliado práticas educativas voltadas para os profissionais de saúde, marcadas pelo que Paulo Freire chamaria de educação bancária, apesar de se utilizar muitas rodas de discussão e metodologias problematizadoras. Em muitos municípios brasileiros a relação entre gestores, com discursos extremamente progressistas, e os profissionais da assistência tornou-se autoritária e, até mesmo, massacrante. A angústia destes profissionais tem crescido muito.
É urgente trazer para as práticas de educação permanente, no SUS, os aprendizados da educação popular, até a pouco, centrada nas relações com as comunidades. Esta é a grande novidade da educação popular em saúde nos últimos anos: a constatação de sua pertinência na formação profissional. Os doutores e estudantes têm saberes anteriores que necessitam ser considerados. Sofrem processos de opressão que precisam ser discutidos, pois estão constrangendo seus envolvimentos com o trabalho. Carregam sonhos, utopias e propostas próprias de mudança social que, se acolhidas, contribuem para elevar ânimos e criar um sistema de saúde mais diverso e rico. Vivem emoções embaraçosas e intensas em seu trabalho que precisam encontrar um ambiente acolhedor e fraterno para serem elaboradas. Têm propostas diferenciadas daquelas defendidas pelas chefias e gestores que, apesar de desarrumarem os planejamentos prévios, costumam enriquecer muito a instituição. Mas não é fácil desenvolver relações pedagógicas dialogadas e amorosas em contextos institucionais tão marcados pelo conflito. Não basta querer fazê-lo. É preciso trazer e valorizar a experiência, já acumulada pela educação popular em sua história, de enfrentamento das dificuldades do diálogo na educação. Esta experiência, desenvolvida em contextos sociais conflitivos e de muita opressão mascarada, denuncia que rodas de discussão e dinâmicas pedagógicas muito criativas podem ser instrumentos de coerção dos educandos. Ela anuncia que conteúdos teóricos muito progressistas são ineficazes se não forem ampla e livremente questionados pelos valores e propostas dos educandos. Frisa que, sem uma atitude de afetuosa de acolhimento e sem o investimento pedagógico na elaboração das relações afetivas entre os educandos e para com as comunidades, os avanços das discussões teóricas geram poucos frutos. É por isto que as vivências deste livro são importantes. Vivências vão além de conhecimentos teóricos, pois explicitam também motivações, emoções, valores e atitudes, elementos importantes para anunciar o que é a educação popular em saúde hoje. Educação popular é mais do que uma concepção teórica de educação, pois inclui também uma atitude de vida. Uma atitude “popular” que valoriza a abertura aos oprimidos (da esposa do alcoólatra ao profissional do posto de saúde sufocado) e prioriza a contribuição dos subalternos (do desempregado ao estudante) no processo educativo e na reconstrução política da sociedade.
Precisamos avançar na construção de um SUS que entusiasme seus trabalhadores, acolha e apóie a diversidade de projetos de felicidade e saúde existentes na sociedade brasileira, valorize o protagonismo dos vários grupos profissionais e comunitários na luta pela saúde e incorpore a emoção, alegria e determinação daqueles que escolhem o setor saúde para atuar. Para isto, este SUS precisa ser ampliado e reorientado, não apenas por iniciativas e estratégias administrativas, legais e políticas, mas principalmente pela utilização da educação como instrumento de gestão participativa e valorizadora da diversidade e dos saberes dos vários atores sociais nele envolvidos. Para isto é importante revalorizar a concepção de educação que, desde os primórdios do SUS, vem sendo elemento dinamizador das experiências mais avançadas de atenção integral à saúde, onde o entusiasmo, a diversidade de propostas e o protagonismo dos moradores e de todos os profissionais eram marcantes. Em nome de um academicismo centrado na Europa e nos Estados Unidos, muitos têm desvalorizado Paulo Freire e supervalorizado outras pedagogias ativas e problematizadoras, referenciadas em autores estrangeiros, muito mais limitadas".

Texto de Eymard Mourão Vasconcelos